
A história da propriedade começa no início do século XX, quando Alfredo Lopes (1892-1981), sonhou e meteu mãos à desmatação e surriba de uma encosta mato, castanheiros, sobreiros, azinheiras e pinheiros para plantar um hectare de vinha ladeada por figueiras e macieiras. Tratava-se de uma área imensa para os padrões de transformação e cultivo na zona, numa altura de trabalho estritamente braçal. A família grande e a abundância de pessoal para trabalhar à jorna, ou a troco alimento para o quotidiano familiar, permitiram que a obra nascesse e frutificasse.
Em 1916 os trabalhos foram interrompidos pela mobilização para a incorporação no contingente português que rumou à Flandres francesa, para combater ao lado dos Aliados na Primeira Grande Guerra Mundial. Contava que durante a manhã andara a plantar duas figueiras a meia-encosta do poço da nora-de-baixo, para depois do almoço (actual pequeno-almoço), ir apanhar a camioneta à estrada, na cruz do Galisteu Cimeiro, em direção a Abrantes. Aí apanhou o combóio para Lisboa e depois um barco que levou oito dias a chegar a França. “Oh Alemanha, Alemanha/ Oh Alemanha maldita/ Deitaste guerra em França/ E agora vês-te perdida”, cantava no regresso são e saudável em 1918.
As figueiras tornaram-se frondosas e marcaram a encosta durante largas décadas, com figos lampos e vindimos, pequenos ou médios, violáceos com laivos escuros, de polpa vermelho escura e sabor forte. A apanha começava em modo furtivo pelo São João, com os figos lampos escassos, para reavivar pela feira de São Bartolomeu (24 de Agosto) e ficar abundante até às vindimas. Era uma fartura para todos, incluindo para os porcos, que recebiam baldes de figos apanhados do chão, antes de pisados ou podres. A memória prolongava-se Inverno dentro com as passas de figo apreciadas com parcimónia com café, junto à lareira. A desvalorização da figueira e do figo, com o aparecimento de árvores com frutos mais apelativos, e a extensa copa das figueiras que diminuía o vigor das videiras em seu redor, ditou o seu fim, sem apelo nem agravo no final dos anos 1980.
O hectare de vinha juntava-se um hectare de oliveiras já centenárias, plantadas na várzea da margem esquerda da Ribeira da Freixada. Contava que nessa época as oliveiras tinham o tronco que têm hoje mas teriam o dobro da altura. Entre a várzea e a encosta da vinha, meia dúzia de botaréus serviam de base a mais oliveiras e cereais de sequeiro.
Devido à sua localização excepcional, orientada a nascente e sul, Alfredo Lopes veio a fundar ali os alicerces para construção da sua casa. Começou com palheiro para com dois pisos: o andar de baixo para currais dos animais – bois, mula e cabras; e o andar de cima, para a armazenamento de feno e grãos. Depois construiu a casa, inaugurada em 1934, por ocasião do baptismo do seu sexto filho, também Alfredo. A casa ficava a 250 metros do centro da aldeia, onde se concentravam todas as casas incluindo a casa de família e dos antepassados.
