Dia 21 de Dezembro é o solstício do Inverno. Um fenómeno que ocorre quando o Sol atinge a maior distância angular em relação ao plano que passa pela linha do equador. Por isso, este dia é o dia mais curto do ano e, consequentemente, a noite mais longa do ano.
Este dia e noite singulares têm inspirado mitos e crenças. É a noite em que o mundo mergulha na total escuridão da alma. E é desse momento da maior escuridão, que surge o “nascimento do sol invencível” – Natalis Solis Invicti, um ritual pagão (Saturnalia) que festejava, com ritos de alegria e troca de prendas, desde o dia 17 de Dezembro e até ao dia 25, o momento em que o Sol «cresce», ou renasce, após o dia ter atingido a sua duração mais curta. Os pagãos germânicos celebravam nesta época o Yule, considerada a primeira festa sazonal comemorada por tribos neolíticas na Europa. A passagem do Yule foi mais tarde adotada pelos cristãos para comemorar simbolicamente o nascimento de Cristo (que na verdade só nasceu em Março, de acordo com alguns registos bíblicos).
Para além dos aspetos astrológicos e os rituais de comemoração associados, este é um momento admirável de retoma do ciclo eterno da transformação. Onde o fim representa um novo começo, abençoado pelo Céu e pelo Sol.
Cabe-nos, mais uma vez, tomá-lo como um presente maravilhoso e raro. Como um convite para renascermos e conscientemente optarmos para uma nova vida, abandonando o que já não nos serve e nos atrasa o passo. Tal como a natureza, que nesta altura se prepara para lentamente acordar renovada, também nós temos uma nova oportunidade para renascer, agora mais sábios.
É uma expressão popular que realça a importância vital da saúde e do pão, alimento fundamental para a subsistência. A expressão reflete uma realidade ancestral, onde a saúde era o bem mais precioso e o pão, essencialmente cozido em fornos comunitários, era o sustento diário de todas as pessoas.
O forno assume-se como uma instituição comunal na vida das populações rurais, usado com frequência regular para cozer pão ou broa de milho e, em ambientes festivos, para bolos, biscoitos, tigeladas, e tabuleiros recheados carne, batata e cebola, entre outras iguarias singulares.
Mas isto de coza o forno, tem muito que se lhe diga. É preciso aquecê-lo e isso não é tarefa fácil, especialmente se já está sem cozer há vários dias, isto é, se está amuado…
Acende-se com duas pinhas sobrepostas e lenha miúda, seguida de lenha mais grossa, não excessivamente verde nem muito grossa. Depois é deixá-lo arder até que o teto (abóboda) passe de preta para completamente branca, que indica que o calor subiu e as fuligem foi queimada.
Ainda a sobre o cozer pão, de notar que o pão se modifica depois da saída do forno. De início, a côdea é dura, mas quebradiça e o miolo é mole. Depois, a côdea deixa de ser quebradiça. Mas o conjunto aguenta bem uma semana.
A história da propriedade começa no início do século XX, quando Alfredo Lopes (1892-1981), sonhou e meteu mãos à desmatação e surriba de uma encosta mato, castanheiros, sobreiros, azinheiras e pinheiros para plantar um hectare de vinha ladeada por figueiras e macieiras. Tratava-se de uma área imensa para os padrões de transformação e cultivo na zona, numa altura de trabalho estritamente braçal. A família grande e a abundância de pessoal para trabalhar à jorna, ou a troco alimento para o quotidiano familiar, permitiram que a obra nascesse e frutificasse.
Em 1916 os trabalhos foram interrompidos pela mobilização para a incorporação no contingente português que rumou à Flandres francesa, para combater ao lado dos Aliados na Primeira Grande Guerra Mundial. Contava que durante a manhã andara a plantar duas figueiras a meia-encosta do poço da nora-de-baixo, para depois do almoço (actual pequeno-almoço), ir apanhar a camioneta à estrada, na cruz do Galisteu Cimeiro, em direção a Abrantes. Aí apanhou o combóio para Lisboa e depois um barco que levou oito dias a chegar a França. “Oh Alemanha, Alemanha/ Oh Alemanha maldita/ Deitaste guerra em França/ E agora vês-te perdida”, cantava no regresso são e saudável em 1918.
As figueiras tornaram-se frondosas e marcaram a encosta durante largas décadas, com figos lampos e vindimos, pequenos ou médios, violáceos com laivos escuros, de polpa vermelho escura e sabor forte. A apanha começava em modo furtivo pelo São João, com os figos lampos escassos, para reavivar pela feira de São Bartolomeu (24 de Agosto) e ficar abundante até às vindimas. Era uma fartura para todos, incluindo para os porcos, que recebiam baldes de figos apanhados do chão, antes de pisados ou podres. A memória prolongava-se Inverno dentro com as passas de figo apreciadas com parcimónia com café, junto à lareira. A desvalorização da figueira e do figo, com o aparecimento de árvores com frutos mais apelativos, e a extensa copa das figueiras que diminuía o vigor das videiras em seu redor, ditou o seu fim, sem apelo nem agravo no final dos anos 1980.
O hectare de vinha juntava-se um hectare de oliveiras já centenárias, plantadas na várzea da margem esquerda da Ribeira da Freixada. Contava que nessa época as oliveiras tinham o tronco que têm hoje mas teriam o dobro da altura. Entre a várzea e a encosta da vinha, meia dúzia de botaréus serviam de base a mais oliveiras e cereais de sequeiro.
Devido à sua localização excepcional, orientada a nascente e sul, Alfredo Lopes veio a fundar ali os alicerces para construção da sua casa. Começou com palheiro para com dois pisos: o andar de baixo para currais dos animais – bois, mula e cabras; e o andar de cima, para a armazenamento de feno e grãos. Depois construiu a casa, inaugurada em 1934, por ocasião do baptismo do seu sexto filho, também Alfredo. A casa ficava a 250 metros do centro da aldeia, onde se concentravam todas as casas incluindo a casa de família e dos antepassados.
O nome da povoação Galisteu é pitoresco e invulgar. Nada se sabe de concreto sobre a origem do topónimo, que também existe em Viseu e nas províncias espanholas da Galiza (Pontevedra) e Extremadura (Cáceres). No entanto, em Espanha, estabelece-se a associação à passagem de ramificações da estrada romana.
Neste sentido presume-se que o topónimo tenha origem em elementos do baixo-latim Cal (pedra) Esteo (pilar), que seria o nome dados na língua romana a um local com pilar de pedra ou marco milenário.
Uma alternativa remota poderá estar associada à Via da Prata, com que os árabes designaram uma via pública empedrada e de traçado sólido pela qual se encaminhavam para o norte Cristão. Depois apontada para ligar Emerita Augusta (Mérida) a Asturica Augusta (Astorga). E mais tarde Sevilha a Santiago de Compostela, com vias alternativas por Espanha e pelo interior de Portugal. Desta forma o topónimo teria origem latina a partir de Callis (caminho) + Teo (Deus). É uma linha menos provável uma vez que, não há quaisquer vestígios físicos ou culturais dessa passagem.
De qualquer forma o nome de lugar Galisteo surge numa cantiga de Martim Soares, um trovador medieval português, documentado no período compreendido entre 1220 e 1260, referindo-se provavelmente a uma povoação do interior de Portugal. Por coincidência, ou não, existe um campo fértil de oliveiras centenárias, ao longo da ribeira da Freixada, a menos de uma légua a sul do Galisteu, a que se dá o nome de Martim Soares.
Verão é tempo de férias, descanso, liberdade e felicidade. É tempo de procurar um lugar onde o corpo e a mente possam descansar, sem sofrimento, e onde encontramos a felicidade na forma de gratificação.
E no empenho quase cego por não fazer nada, tendemos a esquecer que ao Verão segue-se o Outono, o tempo das colheitas. No campo, como na nossa vida, estamos sujeitos a princípios fundamentais que devemos observar para a tão desejada colheita.
Primeiro: Só colhemos depois de plantar
A Bíblia ensina-nos que “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: (…) tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado“, livro de Eclesiastes, cap. 3. Esta fé na plantação, no tempo de crescimento e depois na colheita dos produtos, aplica-se a quase toda a nossa existência.
Certa vez houve um homem que após uma grande caminhada no deserto chegou sequioso a um poço com uma antiga bomba de água. Em cima do poço estava um bilhete que dizia o seguinte: É seguro beber água deste poço. Mas para a bomba funcionar é necessário ferrar o tubo de bombagem, retirando o ar, para não trabalhar em seco. Para isso, está um caneco cheio de água debaixo de pedra branca, no outro lado do poço. Essa água será suficiente para ferrar a bomba, mas que não será suficiente se beber um gole antes. Despeje cuidadosamente a água do caneco sobre o funil e acione rapidamente a bomba. Tenha fé. Este poço não ficará seco. Depois de retirar toda a água que quiser, encha de novo o caneco e coloque-o debaixo da mesma pedra. Por aqui passarão outros viajantes com sede.
Saber esperar é uma virtude! Aceitar, sem questionar, que cada coisa tem uma sequência e um tempo certo para acontecer, é acreditar!
Segundo: Colhemos onde plantamos
Apesar da nossa ambição por uma existência sem limites, a nossa vida tem uma geografia específica contida, onde vivemos as experiências mais significativas. São a nossa família, a nossa casa, a nossa vizinhança, o nosso ambiente de trabalho, a nossa escola, a nossa comunidade. É nestes espaços que estruturamos o essencial da nossa vida. Por isso é importante saber plantar nestes espaços privilegiados, onde vivemos intensamente, porque são os primeiros sítios onde vamos colher.
Terceiro: Colhemos aquilo que plantamos
A lei do retorno é inexorável e não falha! Quem planta amor, fé, esperança e verdade, pode ter esperança em colher frutos próprios para uma vida de bênçãos e de vitórias. Por outro lado, que colheita se pode esperar de uma vida alicerçada no ódio, falsidade e infidelidade?
Era uma vez um carpinteiro analfabeto que, com muito sacrifício enviou o seu filho para estudar na capital. O rapaz formou-se em medicina e casou com uma mulher da cidade com quem teve um filho. Quando sua mãe faleceu ele trouxe o seu pai para viver em sua casa. Como ele recebia muitas pessoas importantes, resolveu alojar o seu humilde pai na casa dos empregados e mandou fazer uma tijela de barro, por não saber lidar com com a louça fina da sua esposa. O menino, apaixonado pelo avô, ao ver tudo isso, foi à fabrica das tigelas e começou a moldar uma outra tigela. O pai, que observava o filho, perguntou o que ele estava a fazer. A que ele respondeu com surpresa: “Estou a treinar para quando o senhor ficar velho, eu possa preparar uma tigela igual àquela que o senhor preparou para o avô”.
Colhemos o que plantamos. É apenas uma questão de tempo.
“Quando as pessoas são felizes, não reparam se é Inverno ou Verão“, dizia Anton Tchekhov.
A história das Motas surge da irreverência dos rapazes do Galisteu Fundeiro, desde o início do século XX, em busca de momentos de diversão e alegria que contrastasse com a vida escassa da aldeia, o trabalho do campo e a aspereza das gentes, moldada pela dureza dos tempos.
Por essa altura, no cimo da portela, a vir da vila, destacava-se uma linha de água que brotava por entre os pinheiros e que se prolongava para sul por um barroco empedrado em direção à vinha da várzea, nas margens da ribeira da Freixada.
Nessa encosta do cimo da portela abundava o barro vermelho, que era um ingrediente fundamental na produção de argamassa para a construção de casas de xisto, muros de pedra, lareiras e fornos de lenha. Na primavera usava-se o barro para selar enxertias na vinha ou em árvores de fruto, e ainda para moldar pequenos artefactos para a casa ou para o campo.
Com as chuvas de Outono a água brotava dos olheiros por entre os pinheiros, e encaminhava-se para o barroco, espraiando-se pelo pequeno vale cavado e alisado pelos homens na exploração do barro vermelho.
E logo os rapazes da aldeia se apressavam para ali, para aproveitar a escorrência das águas sobre o barro, equipados de sacos de plástico para deslizar encosta abaixo a grande velocidade.